Queridos passantes, a partir de agora minhas digestões, indagações e pertubações passam a residir no endereço eletrônico, www.digestoes.blogspot.com.

O motivo da mudança é simples: nenhum. E ao mesmo tempo, vital, pois não aguento mais esse layout para blogs da Uol.

Diamantina

Mercedez entrou naquela cidade como se estivesse sonhando e sabendo que todo relato é um relato de viagem - uma prática do espaço. As luzes clareavam a rua de pedra por onde de dia caminharam homens, mulheres e crianças. Naquele momento, essas mesmas passaredas apenas guardavam sonhos e permitiam que fantasmas pudessem vagar na penumbra das ladeiras do Vale.

Mercedez não poderia imaginar que, nessa noite - que mais parecia abrigar a solidão, seria traçado o dia ensolarado seguinte. Foi nessa noite que conheceu Índio e foi abrigar-se em Milho Verde, terra de tambores rufando e cachoeiras verdejantes.

Ali, Índio reapresentou a Mercedez a fé revestida de beleza e singeleza. Tudo em Milho Verde era magnífico e dava medo - medo do imponderável, do inexplicável, do sublime, da sublime monotonia da natureza -, e era supremo demais para a fragilidade e a insaciabilidade urbana da moça que, cortando diamantes de pedra, decide retornar à cidade de Chica da Silva, a escrava que se fez rainha seduzindo o contratador dos diamantes, João Fernandes de Oliveira, cuja fortuna foi descrita popularmente como sendo maior do que a do rei de Portugal.

Tudo acontecia ali, num espaço de realidade que se transformava em espaço de ficção. Mercedez conheceu Karina, Linda, Laurinha, Narinha. Everton, Elton, Norton, Daniel. Mineiros que de tão arretados pareciam baianos a viverem muito bem por entre os vales do Espinhaço.

De cada um que conhecia, carregava o que de melhor aparentavam e deixava o que de melhor dispunha. E, assim, os dias, que já não eram mais segundas ou sextas – eram apenas dias e noites que se costuravam, iam se passando, sendo passados na memória de Mercedez, que amava tudo ali e se dava às prosas mais empolgadas e contagiantes que de longe se ouvia seus causos e conclusões.

Conversou sobre mundos distantes, vidas paralelas e diabos a solta na rua no meio do redemoinho. Esteve, por lá, certa de que o Diabo não está em lugar algum, mas que habita dentro dos homens. Deixou-se empossar...

E como se o vento não mexe os panos, veleiro não sai do cais, veio a conhecer por insistência Martírio Desventura, mais conhecido como “Pleiba”, dito douto que se faz parecer mais do que é com respostas prontas do tipo: “conheço também”, “posso te passar os contatos”.

Foi assim que Mercedez encontrou o Diabo: vestido como anjo, solícito e dedicado como um servo. Todavia, não tendo tempo a perder, de olho no espaço e sagaz como uma onça, a moça foi proteger-se em moita desconhecida, de onde jamais poderia imaginar o por vir.

Fugindo do Diabo em forma de Pleiba, descobriu um manancial: o próprio Paraíso Perdido de Camões e Caminha, onde das vergonhas as índias não têm vergonha, onde escrever nada tem a ver com significar, mas com dimensionar, cartografar espaços e regiões, mesmo que sejam ainda por vir.

Paixão

 

Tem noites que a gente se sente invencível e tem esperanças no futuro

Noites que guardam a força da natureza e descobrem o passado

Mas, há também os dias comuns em que refletimos sobre a noção do perigo

E decidimos o que é certo ou errado...

Pode ser de acordo com o que se sente ou com o que se diz por aí

Então, fica uma dúvida no ar...

Vote consciente

 

     O dia 5 de outubro, dia das eleições municipais no Brasil, tinha sido um dia daqueles em que, intuitivamente, Helena sabia que alguma surpresa guardava.

     Foi ao trabalho, onde, ao invés de trabalhar, assistiu à Across the Universe e voltou pra casa. No caminho, deu carona pra uma senhora que, sem mais nem menos, começou a lamentar o destino da filha que se casara com um louco aos 15 anos e hoje apanhava calada todos os dias na frente dos filhos.

     Constrangida pelo trágico destino daquela família, Helena sentiu uma solidária obrigação de também relatar alguma desgraça particular (lembrou-se de um ex-namorado, com quem tivera muitas brigas e diferenças).

     Chegando em casa, abriu a porta e alegremente, como sempre fazia, cumprimentou Dona Ritinha, que fazia a faxina rotineiramente.

     _“Bom tarde, Dona Ritinha!”, disse Helena que escutou estalar em seus ouvidos:

     _“Dona Ritinha?? Dona de quê? Dessas perna e desses braço que limpa a sujeira da sua casa??

     Saindo pela porta, Dona Ritinha, que sempre atravessara aquela passagem com ar de resignação, completou, justificando o rompante de lucidez: _“E é isso mesmo que a senhora tá ouvindo. A gente só descobre o jeito da gente mesmo, quando não dá conta de ser de outro jeito”.

     Helena sentiu seu coração palpitar e fazer correr o sangue em seu corpo. Sequer conseguiu reagir àquela cena.

     Como se não bastasse para aquela tarde, peeeeen: alguém tocou a campanhia. Helena atendeu e ouviu pacientemente um pedido de esmola.

     _ “Eu preciso de uma ajuda para uma família de pessoas com leucemia, qualquer alimento não perecível serve”, disse o rapaz desconhecido à porta.

     Helena respondeu: _“Vou ver se tem alguma coisa.”

     Voltando para dentro de casa, olhou no armário da cozinha e pensou: “Hum, só tem esse pacote de feijão fechado! Acho que não sou responsável pela fome do mundo. Dar essa esmola só vai contribuir ainda mais para a sobrevivência dessa situação de desigualdade.”

     Voltando à porta, disse: “Infelizmente, não fiz compras e não tenho nada”.

     O rapaz insistiu: “Qualquer coisa: uma barra de sabão, um pouco de arroz”.

     _“Huum, então, deixa eu ver de novo”, respondeu Helena, a qual retornou em seguida com a barra de sabão na mão e foi surpreendida pela atitude do rapaz que pegou o pacote sem fazer o menor gesto de gratidão e saiu.

     Helena o interpelou: “De nada!”

     E ele respondeu: “Por nada!”

     Chocada com a atitude do rapaz, Helena voltou para dentro de casa, atendeu o telefone que tocava e ficou sabendo pela vizinha que aquela Dona Ritinha, que aparentemente era só mais uma hipocondríaca que tinha perdido o pai aos seis anos de idade com sete derrames, tinha mais histórias pra contar... Depois da morte do pai, a mãe tornou-se uma desvairada prostituta que se arranjava e arranjava os filhos como podia. A irmã, abandonada pelo marido que se engalfinhou com a vizinha, perdeu o filho de sete anos em sete dias por causa de um câncer que pensavam ser verme. A família, depois disso, nunca mais fora a mesma e as desgraças pareciam se somar exaustivamente na vida de Ritinha até o dia em que ela encontrou Jesus. Foi quando passou a pensar que talvez nada no mundo material tivesse mesmo fundamento e se libertou em partes da marginalidade em que se inseria, passando a lutar bravamente para conseguir sobreviver com os três filhos que lhe legara o marido, também falecido.

     Nesse ponto da história, Helena já não podia mais ouvir aquela tragédia de vida e se perguntava o que tinha haver com aquilo tudo. Intoxicada da desgraça alheia, pensou por um minúsculo segundo em cometer suicídio por causa dos problemas aparentemente insolucionáveis da humanidade, mas este seria um gesto muito grandioso para o tamanho de sua consciência e compaixão.

     Helena desligou o telefone e desejou profundamente voltar para sua vidinha.  Não sabia - e ainda não sabe - o que tem haver com tudo isso ou quanto vale sua participação na história dessas pessoas que não vivem, mas sobrevivem à espera da ressurreição.

“Se algum virginiano se interessar por você, sinta-se privilegiado, pois ele é muito criterioso na escolha de uma companhia, de uma amizade e de um amor.

Tímido, custa a tomar uma atitude e a partir para uma conquista.

Começa uma aproximação polemizando e contrariando tudo que você diz.

Bom sinal! É prova de que você o atraiu.

Não espere elogios - mas críticas - vindo dele, é claro, construtivas.

Pouco romântico, cerebral, prático e muito afinado com o mundo real como um típico filho da Terra, não precisa de climas, disfarces, nuances ou artifícios para fantasiar o amor.

Vive a situação como se apresenta no concreto. Gosta das pessoas possíveis e das relações possíveis.

Para cativá-lo, é preciso ser autêntico, cuidadoso com a aparência e, se possível, perfeito.

Homem ou mulher, o amor jamais enfeitiça um virginiano o suficiente para impedi-lo de ver as falhas e deficiências dos outros.

Não é muito pródigo em afeto e busca mais qualidade do que quantidade.

Prestativos, usam seus serviços e favores para demonstrarem como estão ligados a alguém. Em vez de palavras ou promessas, ou mesmo flores, preferem gestos práticos que facilitam de alguma maneira a vida de quem amam.

É uma pessoa com quem sempre se pode contar.

Pessoas displicentes, desorganizadas, sem rotina, egocêntricas não resistem à sua habitual análise fria e minuciosa e acabarão fugindo deles.

Atentos, nada passa despercebido à observação de sua mente analítica. Com ele esqueça de desculpas esfarrapadas e mentiras inocentes. Eles são precisos e vão pegá-lo na primeira contradição.

 

Burocracia, um conceito administrativo caracterizado principalmente por um sistema hierárquico, com alta divisão de responsabilidade, onde seus membros executam invariavelmente regras e procedimentos padrões, como engrenagens de uma máquina.”

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

A moça solicita à operadora de telemarketing uma informação, qual seja: gostaria de saber se o serviço de internet móvel que oferecem possui carência de fidelidade. Ao que, a telefonista responde: senhora, só um minuto que vou estar passando a senhora para o setor responsável...

A cidadã, enquanto aguarda oguns minutos na linha, rascunha idéias num papel, desliga e liga de novo: 0800 940 1331. Dá ocupado.

Mais uma tentativa e outra atendente a transfere para o setor responsável...

Dessa vez, encontra uma pessoa realmente disposta a ajudá-la.  Mais uma meia horinha e consegue obter a informação.

A Teoria do amor líquido

 

Como é que vim parar nessa página de internet que fala sobre a teoria do amor líquido e a fragilidade dos laços humanos?

Cada vez as relações se tornam mais fugazes - e, não sei se superficiais ou profundas – mas, é assim que me vejo:

Consumindo pessoas, como se fossem coisas..

Um homem ou uma mulher tem que ter alguma coisa assim de atraente...

Que se faça me interessar..

O amor está nas conveniências

O amor está nas ficções e fixações

O amor está na natureza

O amor está nas exigências e também nas expectativas

Decote

 

Vejo no decote dela

O peito aberto para o mundo

Vejo no decote dela

Um em tu siasmo profundo

 

Vejo no decote dela

Um debruçar na janela

Um batuque no fundo

Tum, tum, tum, tum...:

 

Tem alguém batendo,

batendo dentro dela!

Tem alguém batendo,

pedindo pra entrar!

 

DÚVIDA

 

Carece o mundo de certas pessoas

Certas de alguma coisa

que nos deixem em dúvida de nossas certezas

NO SINAL

 

 

MAL O SOL SURGIU

O SOLO SENTIU

O CALOR DOS PNEUS

QUE LARGARAM COM A AURORA

E DEIXARAM NO AR

O MAU CHEIRO DE AGORA

 

VIRA-LATA NA TRAVESSA

VIRA-PATA NA CALÇADA

 

UM BUZINA

OUTRO ENCENA

EM RESPOSTA

GESTO OBSCENO

 

ULTRA-PASSO UM

ULTRA-PASSO DOIS

FEITO UNS BOIS

ENCURRALADOS NO FINAL

Poema para Lia

 

Pode ser que os céus escureçam

as estrelas apareçam

e eu coloque minha saia rodada e saia

por aí, ao luar de Gaia

e, esperando por Maíra,

distraída, como uma índia caraíba,

encontre a pandemia

vestida de branco, assombrando

 

Ou

 

Pode ser que a euforia

me leve longe...

me faça aurora do dia,

das almas, do monge.

E nessa noite,

que já foi dia,

me veja mestiça

como Lia

A Mariana adora comer chocolate derretido de calor,

detesta correr e está sempre atrasada,

perde a convicção toda vez que relativiza as coisas,

e fica mais forte toda vez que enfrenta um obstáculo.

 

A Jânis não gosta de ser rápida no banho,

detesta quando a cortina do box cai enquanto ensaboa,

e gosta de ouvir sua voz ecoar pelo ralo junto com a água...

Não sei qual dos homus começou a olhar o céu.

Mas, acredito que uma mudança significativa ocorreu,

quando levantou os olhos e olhou para cima.

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